Em seu blog, Juca Kfouri postou um
capítulo do novo livro, que fala sobre o
esquema de venda de ingressos
A Panda Books está em vias de lançar no
Brasil o novo livro de Andrew Jennings, o jornalista escocês que deu
o golpe final nas carreiras de João Havelange e Ricardo Teixeira.
O livro, em fase final, ainda
está sem título, mas deverá ser lançado simultaneamente em maio na Inglaterra e
aqui, com o nome de “O jogo mais sujo ainda”,
referência ao “Jogo sujo”, do mesmo Jennings.
Capítulo
7: Os ingressos para a Copa do Mundo debaixo do iceberg
Imagine os três milhões de ingressos
para os jogos da Copa do Mundo empilhados numa montanha de papelão. Você ama
futebol? Quer um naco dessa montanha? Você pode tentar a sorte nas loterias da
FIFA ou comprar por meio das federações e associações nacionais.
Todos os fãs
são iguais na disputa pelos preciosos ingressos. Você se cadastra no site da
FIFA, solicita o ingresso da partida desejada, e perde… mas a FIFA diz que é um
sorteio justo. A montanha desapareceu. Não fique triste, deixe para lá, quem
sabe da próxima vez, daqui a quatro anos, em outro país, talvez você tenha
sorte.
A FIFA alerta:
não compre ingressos de “agentes não autorizados”. Os paus-mandados de Herr
Blatter têm o poder de impor severas penalidades ao que ele chama de atividades
“ilegais”. Seus ingressos podem ser rasgados na porta do estádio porque você
não comprou dos agentes selecionados da FIFA. Sepp pede que você acredite que
quando eles não estão vendendo ingressos superfaturados e com eventual cobrança
de taxa de entrega, estão lá nas ruas, policiando e sufocando o que ele chama
de “mercado negro”. Ele não vai permitir um mercado paralelo, livre,
competitivo, como existe em qualquer outra atividade comercial. A indústria dos
ingressos da Copa do Mundo deve continuar sendo um monopólio não regulamentado.
Olhe de novo
para a montanha de ingressos, mas dessa vez imagine que ela é um iceberg
flutuando no oceano. De repente a quantidade de ingressos disponível para os
fãs de futebol diminuiu. Para onde eles foram? Dê uma espiada sob a superfície
e você poderá vislumbrar um outro mundo, onde os ingressos com os quais você
tanto sonhou estão boiando, sedutores, tão perto mas tão longe do seu alcance,
um desejo impossível de realizar.
No mundo
inteiro talvez existam apenas três pescadores que realmente sabem o que está
acontecendo nessas profundezas. Sepp –– e Jaime e Enrique Byrom. Sepp conhecia
os irmãos Byrom desde 1986, quando a Copa do Mundo foi realizada no México,
país onde os Byrom nasceram. Naquele tempo Sepp era o secretário-geral da FIFA
e realizava todos os desejos de seu patrão, João Havelange.
Herr Blatter
sabia que os Byrom eram próximos de um dos chefões do futebol mexicano, o
magnata da televisão Guillermo Canedo, um dos vice-presidentes da FIFA. Canedo
era íntimo de João Havelange, o presidente. Sepp trabalhava para Havelange.
Qualquer amigo do presidente tinha de ser bem tratado. Os irmãos Byrom, ambos
na casa dos 30 e poucos anos, estavam organizando viagens para a Copa do Mundo
e, muito bem relacionados, tinham um grande futuro fazendo negócios com a FIFA.
Os irmãos
prosperaram, mudaram-se para a Inglaterra e hoje administram uma enorme fatia
das gigantescas operações da Copa do Mundo da FIFA desde um moderno edifício de
dois andares em um parque comercial nos subúrbios verdejantes do sul de
Manchester, perto do aeroporto internacional. Uma de suas empresas é a Byrom
Holdings, cuja sede fica na ilha de Man, onde os irmãos não precisam publicar
seus balancetes. Uma de suas contas bancárias fica em Sotogrande, Espanha. Os
irmãos moram em agradáveis casas de luxo na área rural do condado de Cheshire,
ombro a ombro com astros dos dois grandes clubes de futebol de Manchester.
Todos os
ingressos para todo e qualquer jogo da Copa do Mundo são contabilizados pelos
computadores de Jaime e Enrique. Sepp pode dizer o que bem quiser para quem
quiser ouvir, mas alguns desses ingressos acabam nas mãos de cambistas,
intermediários e agências. Ao longo dos anos os ingressos já passaram por
várias mãos: um polonês especialista em artes marciais, trapaceiros caribenhos,
um gordo com um escritório na Trump Tower, pilantras e capangas do Leste
Europeu –– na verdade, nas mãos de todo mundo, todos fazendo negócios secretos
na vasta parte debaixo do iceberg, com a bênção dos dirigentes da alta cúpula
da FIFA. Um cambista me disse que “Até 40% dos ingressos saem pela porta dos
fundos da FIFA”. Isso me deixou boquiaberto. Eu achava que talvez fosse no
máximo uns 10%.
Texto reproduzido do blog de Juca Kfouri.


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