#COPADOMUNDO – OS CAPÍTULOS DE UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA


            O futebol brasileiro vive uma crise técnica há muitos anos. A goleada sofrida na terça-feira foi apenas a cereja nesse bolo de problemas


            Será que tudo veio sendo feito de maneira adequada antes da derrota por 7 a 1 perante a Alemanha? Qual era a realidade do futebol brasileiro antes desse massacre? O quanto vitórias de clubes e seleção não “iludiram” torcedores e pessoas que estão à frente do futebol?
            O futebol brasileiro mudou, e para pior, depois da derrota de 1982. O futebol técnico, refinado, de que era melhor jogar bem mesmo sem ganhar, ficou para trás. Nunca mais a seleção teve um futebol tão bonito, tão envolvente, capaz de extrair o melhor de cada jogador. Um futebol que tinha a cara da seleção brasileira e sua história.
            Depois de 1982, quando assim como em 2014, a população não foi preparada para não ganhar o título, houve sim uma grande mudança, talvez do mesmo tamanho da mudança que precisamos hoje.
            Em 1982 o Brasil já atuava com três volantes, Toninho Cerezo, Sócrates e Falcão. A diferença é que eles tinham uma qualidade absurda, como tinham os laterais Leandro e Junior. Telê Santana montou um grande time, que entrou para a história, mesmo não sendo campeão.
            Depois da derrota para a Itália, gênios do futebol de resultado passaram a se multiplicar por aqui. Depois de 1982 o Brasil conseguiu ter volantes dessa qualidade? Armadores com a qualidade de Zico? Quando o Brasil teve um futebol coletivo tão envolvente?
            Não é só uma questão de safra, é de metodologia de trabalho. Desde a formação de atletas até o trabalho no futebol profissional, a maneira de se ver e trabalhar o futebol piorou.
            O futebol força, o futebol de resultado levou o Brasil a ganhar o título mundial em 1994. Um time que tinha Taffarel para pegar pênaltis, Dunga para xingar todo mundo e controlar o Romário e uma dupla de ataque sensacional, com Bebeto e o Baixinho. Coletivamente o time comandado por Parreira era pobre, mas mesmo a vice-campeã, Itália, era um time também fraco.
            Vale dizer que durante esses 12 anos que separam o desastre de Sarriá do título no Rose Bowl, o Brasil fracassou nos jogos Olímpicos, inclusive em 1988, quando vários campeões mundiais “ganharam” a medalha de prata.
            Em 1996, novo desastre olímpico, precedendo a Copa da França. Futebol meia-boca, alguma ajuda da arbitragem, Rivaldo e Ronaldo jogando bem e uma derrota acachapante para a França, que tinha um meia armador, um cara para pensar o jogo, Zidane.
            2000 foi outro ano de decepção olímpica e em 2002 o título na Coréia e no Japão. Ronaldo e Rivaldo, de novo, decidiram, mas teve apito amigo contra a Bélgica, gol com pitada de sorte de Ronaldinho contra a Inglaterra, mas o grande ponto é que além do futebol com três zagueiros, não houve nenhuma revolução tática ou técnica. O único grande jogo foi justamente na final contra a Alemanha, que não tinha o seu melhor jogador, Ballack, suspenso por acúmulos de cartão amarelo. Vale a lembrança, Marcos foi um jogador extraordinário e decisivo nesse mundial.
            A partir daí, o Brasil teve Parreira na Copa de 2006 e montou uma seleção com dois cones (pra usar a palavra da moda) gordos no ataque. A derrota para a França é simbólica, porque houve um show de Zidade, o meia armador que não existe por aqui desde Zico.
            Após a Copa da Alemanha, Dunga assumiu a seleção brigou com a imprensa, com a torcida, com o mundo, não convocou Ganso e Neymar, chegou as quartas-de-final e caiu diante da Holanda. Dos últimos anos foi o melhor jogo coletivo que o Brasil teve. Era um time consciente de suas limitações, o futebol até poderia não agradar, mas era um time compacto, que tinha um contra-ataque mortal e que sucumbiu após a expulsão de Felipe Mello.
            Depois veio o trabalho de Mano Menezes, que fracassou nos jogos olímpicos de Londres, foi demitido, Felipão assumiu e fez o Brasil jogar sem meio-campo e com um centro avante que tem menos movimentação que uma tartaruga. Coletivamente o futebol apresentado na Copa de 2014 foi o mais pobre que vi em 25 anos de idade. E isso nada tem a ver com a presença ou não do Neymar.
            O trabalho feito nas categorias de base mudou. Acredita-se que o Brasil é mesmo o país do futebol e que ganhamos porque somos os melhores, não porque tivemos grandes jogadores, que hoje não conseguimos mais criar.
            A Alemanha é um exemplo, não porque fez 7 a 1 no Brasil, mas porque eles entenderam que mesmo sendo vice-campeões em 2002, o futebol apresentado naquele momento não era o que a sua torcida e sua tradição mereciam.
            Olhar para o futebol brasileiro hoje dá pena. Não só na seleção. Desde 2010 Internacional, Santos, Corinthians e Atlético-MG ganharam a Copa Libertadores. Todos foram jogar o mundial interclubes. O Inter perdeu para o Mazembe, o Santos tomou 4 a 0 do Barcelona e o Atlético-MG perdeu para o Raja Casablanca.
            Infelizmente o futebol brasileiro virou um time de exceção também no futebol. Não é feito nada para que jogadores técnicos e habilidosos como Zico, Falcão e Sócrates apareçam. Temos que parar tudo, apertar o Reset e começar do zero, como de maneira natural foi feita após 1982. Temos que mudar a maneira de formar jogadores, treinadores, cartolas e até torcedores.
            Falta humildade de olhar para fora, entender o que vem sendo feito em outros países. A Alemanha passou por várias mudanças desde 2002, mas já chegou a semifinal nos últimos 4 mundiais, um recorde. Ou seja é possível se reinventar, sem perder qualidade. Basta saber qual os pontos fortes e fracos de seu time.
            Muitas vezes as vitórias escondem os nossos problemas. Quando perdemos os problemas tendem a aparecer. Espero que a humilhação de terça-feira mostre que está tudo errado e que a estrutura do futebol brasileiro precisa mudar. A começar pela estrutura diretiva da CBF e o seu papel em um futebol moderno.

            Quem vive de passado é museu, o Pelé e a seleção brasileira de futebol.
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